terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Que futuro?

Queria hoje ao invés de te criticar, te contar uma história.
Era uma vez um menino, que foi “abençoado por deus” e nasceu em uma boa família. Esse garoto teve tudo o que precisou para ter uma formação decente, uma vida digna, como uma boa alimentação, uma casa confortável, roupas novas, uma cama quentinha para dormir, na medida do possível os melhores brinquedos, e enfim, chegou a hora dele ir pra escola. O incentivo dos pais para que ele freqüentasse a escola foi digno de uma condecoração. E não só o incentivo para freqüentar, mas também para ele se dedicar e estudar cada vez mais. Então cada vez mais motivado, ele resolveu cursar um colégio técnico no ensino médio, e em seguida, pôde fazer um cursinho para então ingressar em uma faculdade com muito prestígio.
Assim, em uma madrugada gelada, depois de horas de estudos, esse rapaz se encontra indo embora da casa de um amigo, quando de repente ele se depara com uma cena deprimente. Um menino de aproximadamente 12 anos, dormindo na rua, sem ao menos um cobertor, ou um papelão, simplesmente dormindo na calçada. Com a cabeça a mil, ele simplesmente se perguntou: Que futuro tem esse menino? E assim acaba a história!
E então você é levado a pensar muitas coisas. Uma delas é simplesmente: qual é o motivo que o fez nascer numa família tão desestruturada que ele chegasse ao ponto de dormir na rua? Ou se perguntar, por que deus foi tão cruel com ele? Ou até mesmo, parar e pensar, se um dia você o encontrasse no semáforo roubando 1 real, você o julgaria como um transgressor? É claro que você responderia essa última questão, usando o seu falso-moralismo tão peculiar, “a ocasião faz o ladrão” ou algo do gênero, querendo insinuar que mesmo com as condições de vida que ele teve, com 12 anos de idade ele deveria ter maturidade suficiente para parar e decidir que ele não iria roubar 1 real pra comer. Ah, faça-me o favor!
E com tantos meninos como esse, as penitenciarias se transformam num asilo social. Quem não tem mais jeito, quem já foi completamente estragado pela má distribuição de renda, pela falta de educação, nos dois sentidos da expressão, pela falta de dignidade, acaba indo para lá, e começa um curso extensivo de como ser um bandido, com alguns requintes de crueldade que todos nós conhecemos. Mas como você é moralista ao extremo, usa mais uma vez um discurso pré-fabricado, não por você é claro, por que isso não é do seu feitio, mas que se encaixa muito bem na situação, que é: “vai da índole da pessoa”, “cada um tem o que merece”, “pobreza não justifica nada”.
Enfim, eu concordo com essa retórica em partes. Eu acho que cada pessoa nasce com uma índole, e que isso vai determinar todas as ações dela, inclusive se ela vai roubar, matar, todas essas coisas. E as pessoas que nascem com esse desvio de caráter devem sim serem isoladas do convívio social, afinal a ordem geral depende disso. Agora isoladas do convívio social não significa jogadas numa cela que cabem 50 e convivem 300. Mas não vamos entrar no âmbito da situação precária das penitenciárias do Brasil, por que isso é demasiado clichê. E se eu falar: você diz que pobreza não justifica nada, mas isso é por que você nunca viu seu filho passando fome, não vou estar sendo tão convincente por dois motivos, um que vou estar usando mais um clichê, e outro que eu também nunca vi meu filho passando fome, afinal eu nem tenho filho. Então eu deixo você com essa dúvida. Será mesmo que a pobreza, a miséria, condições mais que precárias de vida, a completa falta de educação, de saúde, de amparo social, até mesmo de instrução, de noção do que é certo e o que é errado, de uma família verdadeira, será mesmo que tudo isso não justifica nada?
Para encerrar, eu não estou defendendo ninguém, e nem mesmo o ato de roubar para comer, ou roubar por qualquer outro motivo, acho que se a pessoa comete algum mal real para a sociedade, tem que ser punido sim, mas eu tive que falar tudo isso pra jogar uma coisa na sua cara. Você vive com medo de ser assaltado, vive com medo de andar na rua e perder seu ipod, seu nike shox, seu celular, mas nunca parou para pensar que para muitas e muitas pessoas, a situação é tão extrema, que elas são levadas a achar que roubar não é tão ruim como parece, como esse menino de 12 anos dormindo na rua em pleno inverno, que se um dia sentir fome e não tiver escolha, vai acabar fazendo, infelizmente.
Mas e aí? A culpa é de quem?

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Pão e Circo – Parte III

Eu sei também que você ficou pensando, apesar disso ser extremamente difícil, que falar “mal” de algo que eu não gosto, é fácil, mas que você queria me ver falando mal de alguma coisa que eu realmente gostasse, e é isso que eu vou fazer, para te mostrar que sou capaz. Nossa tão amada bebida alcoólica! Ô coisa boa não é verdade? Mas você já parou para pensar no quanto isso é alienação? Em um ranking de drogas mais perigosas, o álcool está em quinto lugar, ou seja, uma das drogas que mais vicia, e o seu consumo não é que seja liberado, ele é difundido, e é justamente nesse ponto que eu sustento a minha tese sobre o “pão” da política de pão e circo.
Um dia eu vi uma propaganda na televisão de uma cerveja X, que tinha como moral da história o seguinte: “Você é um desgraçado, seu emprego é péssimo, você é explorado o dia todo, mas no final do dia existe uma cerveja estupidamente gelada no bar mais perto de você”. E chegar a essa conclusão foi deprimente, afinal de contas, compensar os problemas sociais com uma manipulação esmagadora em cima do povo é uma situação ridícula. Por que assim fica muito fácil esconder a falta de saúde, de educação, de transporte decente, de um emprego decente, de um salário decente, resumindo, de uma vida digna. Você todo dia é convidado, ou até mesmo intimado a ser apático, cego, diante da situação em que você se encontra, em que o país se encontra, em que seus filhos se encontram, e é levado a crer que discutir, lutar, brigar por uma condição de vida melhor é coisa de quem não tem o que fazer, chegando ao extremo de considerar isso imoral. Imoral é o que fazem com você, com a sua vida, e não brigar por ela, é mais imoral ainda.
Mas eu também entendo o seu lado, pois a alienação que fazem com você é tão pesada, que você acaba achando que não tem opinião própria. Aliás, você nem sabe que pode formular um conceito sobre um determinado assunto, você simplesmente deixa que façam isso por você.
E para encerrar, só uma coisa que vai te deixar intrigado. Perceba que pelo menos uma pessoa na sua família sofre do alcoolismo. E isso é um mal que aflige, segunda as estatísticas, 11,2% dos brasileiros que vivem nas 107 maiores cidades do país, ou seja, fazendo um cálculo grosseiro, cerca de 20 milhões de pessoas. E você acha mesmo que a culpa da doença de cada um é deles mesmo? Somente pense um pouco sobre isso, se for possível.
Agora se você acha mesmo que eu estou preocupado com você, com sua vida, ou com o quanto você é alienado, pode ter certeza que sim, se não nem estaria escrevendo essas coisas, mas infelizmente você não quer sair desse buraco, então eu não posso fazer nada. Sorry!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Pão e Circo – Parte II

Eu sei que você ficou intrigado com meu post anterior, pensando assim: “Ele fala mal de futebol por que não sabe jogar, por que é um perna de pau.” Eu sei que você tem esse tipo de pensamento, por que você é muito ignorante, mas vou te contar, não sei jogar mesmo, e não gosto de jogar.
Agora, considerar que é indispensável um homem saber jogar futebol é uma idéia um pouco absurda, não acha? Mas é isso mesmo que você pensa. “É intolerável um moleque não sair de casa para jogar uma pelada com os amigos e ficar em casa lendo um livro.” Porém eu daria tudo para que no meu país o pensamento fosse totalmente o contrário.
Contudo não é meu dever mudar isso, até por que eu não ligo para o que você pensa, aliás, para o que você pensa não, por que você não tem capacidade de formar uma opinião, eu não ligo para essas convenções que vêm de geração em geração, e que já se tornaram um ranço incorporado na “genética” do brasileiro.
Não obstante, você tem um trunfo, que eu até acho aceitável, por que como eu já disse, a sua cabeça não funciona para formular algo muito complexo, então você xinga o cara que não joga futebol de “viado”, “bicha” e afins. Aliás, perceba bem que quando você não tem argumentos, o que acontece em quase todas as situações, quiçá todas, você parte para a agressão, verbal ou até mesmo física. Mas eu também sei que isso não te incomoda, afinal você é ignorante e não está “nem aí”, o que é um dos sintomas mais graves da ignorância.
Mas de qualquer jeito, antes ignorante do que viado né?