sábado, 7 de junho de 2008

O menino de plutão – Parte II

Tem também uma coisa que me chocou muito, muito mesmo. Foi essa tal de violência. Coisa de seres inferiores, que não compreendem o valor da vida, o valor de cada ser vivo no mundo. Os ricos desse planeta vivem como se fossem prisioneiros, em muralhas, cercados de segurança, com medo. E os pobres vivem a margem da sociedade, que acaba os transformando em pessoas violentas. E por essa péssima organização social, acabam indo parar nas cadeias. Que absurdo. E então você me pergunta se no meu planeta não existe gente violenta, e eu te respondo, claro que sim. Mas são pessoas que nascem com um certo distúrbio, e quando esse distúrbio é identificado, elas são afastadas do convívio social, mas continuam tendo uma vida digna. Elas vivem em locais especiais, com todas as condições básicas, mas com uma certa distância das outras pessoas, por questão de segurança.
E esse atraso de vocês em relação às drogas, é incrível. Estamos, no mínimo, 100 anos na frente de vocês em relação aos entorpecentes. Não temos essas “drogas” que vocês tem aqui, mas temos outras. E era como aqui. Existia uma droga, que era legalizada, assim como o álcool, e incrivelmente era a droga que fazia mais estragos, e então todo mundo tomou consciência de que não havia por que proibir as outras. E então houve uma legalização geral, e todas as drogas foram liberadas. E hoje elas são utilizadas de maneira totalmente diferente de como eram. As drogas eram tidas como fuga para problemas, hoje são apenas passatempo, como ir ao cinema, ou comer uma comida diferente. E todos sabem o mal que elas causam para a saúde, mas todos sabem também que comer gordura, frituras, doces, e tantas outras coisas também causam. Cabe a cada um decidir, se vale a pena ou não.
Mas com certeza, o que mais distancia um planeta do outro, é essa lei geral que rege a vida de vocês. Nascer, crescer, estudar, trabalhar e casar, ou casar e trabalhar, ter filhos, criar os filhos, e morrer em paz. Tem coisa mais patética que isso? Eu ainda não tinha visto. Como você deixa as pessoas tomarem as rédeas da sua vida? Os únicos no planeta que você deve satisfação, são seus pais, por uma questão de respeito, por que foram eles que te colocaram no mundo. Mas nem mesmo eles podem controlar sua vida, dizer o que fazer, como agir. Você é um ser de escolhas, e elas devem ser feitas por você, não por essa coisa indefinida que você chama de eu. Esse seu “eu” não é regido por suas vontades, e sim pelo que colocaram na sua cabeça, pelo que fizeram você acreditar que era o certo. Ou você acha que todo esse seu sofrimento, essa dor que você sente todo dia, esse vazio, é por que? É o seu “eu” verdadeiro gritando, clamando por uma atitude. Uma atitude de mandar todo mundo ir pastar, e viver a sua vida assim como você desejar. Não quer estudar ou trabalhar, arque com as conseqüências. Não quer casar, o problema é seu. Aliás, só abrindo um parêntese, que coisa ridícula também esse tal de casamento, vocês não acham? Enfim. Não quer ter filhos, o problema é seu. Quer morrer? Cansou dessa vida? O problema é só seu. Pode ter certeza. Mas então por que todo mundo te julga? Ficam chocados quando você diz que não quer ter filhos. Te chamam de vagabundo por que não quer trabalhar. A igreja te condena ao “inferno” se você resolve que chegou a sua hora de ir embora. Você nunca parou para pensar, que lá no fundo, dentro de você, existe uma pessoa, que tem suas próprias vontades, sejam elas as mais diferentes possíveis, e que você tem no máximo 120 anos, sendo otimista, para realizá-las?
E como esta conversa está ficando grande demais, apenas deixo um conselho, e como todo conselho, você não precisa nem levar em consideração se quiser, mas ao menos ouça. Cuide da sua vida, e não deixe que ninguém faça isso por você. Realize suas vontades, é claro que se elas não incluírem danos contra outras pessoas, e seja feliz. Cure esse sentimento estranho que você não sabe nem o nome, mas que te consome por dentro, todos os dias da sua vida.”
E assim terminou a entrevista do habitante de plutão. Agora você consegue imaginar como foi a repercussão disso tudo?
Foram disparados contra ele, todos aqueles rótulos corriqueiros. Socialista, comunista, anarquista, perturbador da ordem, tarado, pervertido, bicha, viado, herege, ateu, transgressor, drogado, enganador, vagabundo, e tudo mais que você sempre utiliza para nomear aquelas pessoas que você considera “diferentes”.
Todas as religiões do planeta, os líderes dos países, os traficantes de drogas, as forças armadas de vários países, os fofoqueiros de plantão, o pessoal dos direitos humanos, a sociedade protetora dos animais, as ongs, a ONU, e todo esse povo, exigiram a deportação dele imediatamente. E ele, como já havia ficado chocado demais com o nosso planeta, foi embora, e agora está rodando pela galáxia, procurando por VIDA INTELIGENTE!