quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O dia que parei de pagar impostos

Depoimento de um cidadão brasileiro comum:
Eu estava sentado à beira da calçada, vendo as pessoas passarem, cada uma seguindo a sua vida, todas robozinhos manipulados, e percebi que elas só têm uma única utilidade: fazer o seu trabalho, pagar o seu imposto, pra sustentar a máquina do governo, que por sua vez não tem outra preocupação a não ser manter essa máquina funcionando, por que com os cidadãos eles não estão preocupados nem um pouco preocupados.
Foi então que eu decidi que não pagaria mais impostos. Queimei meu RG, meu CPF, minha certidão de nascimento, símbolos da suposta “autoridade” do estado sobre as pessoas. Desliguei-me completamente da chamada “civilização”. Fui morar numa pequena área de um sítio de um amigo, plantei batata, mandioca, alface, cenoura, tomate, criei algumas galinhas, uns porcos, umas vaquinhas. A água tinha em abundância como sempre teve, e era de graça, como sempre devia ter sido. Meu amigo me deu livros, muitos livros, que lia durante o dia, deitado na rede na varanda da minha casinha, de dois cômodos, a cozinha e o quarto. O banheiro era o mato, fazia todas as necessidades por ali mesmo. E banho eu tomava num riozinho que passava há alguns metros do sítio. Tinha tudo que necessitava ao meu alcance, feito pelas minhas próprias mãos. Acordava cedo, tirava leite da vaca, depois ia cuidar dos animais e das minhas plantinhas. Fazia almoço, tirava uma soneca na rede, depois ficava a tarde toda lendo, ou escrevendo alguma coisa. Quando o sol se punha, eu jantava, e ficava na varanda ouvindo o barulho dos bichos, olhando as estrelas, e depois ia dormir.
“O mundo devia ser assim”, eu pensava. Nada daquela corria da cidade. Nada de carros, televisão, luz elétrica, poluição, comida ruim, violência, barulho, semáforos, compromissos, despertador, computador, internet, orkut, notícias ruins, corrupção, governo, políticos, polícia, juízes, seqüestros, mais notícias ruins, shopping, consumismo, fome, ostentação, ricos e famosos, flashes, revistas de fofocas, falso-moralismo, cigarro, álcool, tráfico, emprego, desemprego, currículos, ganância, concreto, asfalto, água encanada, água suja, água cara, comida cara, tudo caro, eletroeletrônicos, eletrodomésticos, roupas, roupas caras, roupas de grife, chocolate, desigualdade, tarja preta, terapia, cartões de crédito, cartões de débito, contas, dinheiro, impostos, impostos em vão...
Foi então que eu percebi que a vida seria muito perfeita se todos nós nos contentássemos com alface, batata, galinhas, leite, água limpa, banho no rio, livros, luz do sol, luz da lua, rede na varanda, uma boa noite de sono, acordar quando quiser. Mas por que ninguém está satisfeito com isso? Por que essa necessidade de criarmos as cidades, os estados, os países, os governos, as leis, a polícia, os juízes, os empregos, os salários, o dinheiro, os carros, a televisão, o computador?
Se todo mundo vivesse em harmonia com a natureza, e tudo que elas nos proporciona sem cobrar nada, a não ser cuidado e preservação. Se todo mundo vivesse a sua vida, sem tomar conta da vida de ninguém, onde todo mundo fosse a mesma coisa, até por que é o que somos, a mesma coisa. Se todo mundo tivesse às mãos tudo o que necessitava, comida, água, livros, e uma boa noite de sono. O mundo seria uma BOSTA, conclui.
Foi por isso que decidi sair daquele sítio, e voltar pra cidade. Pra poluição, pra comida ruim, pro caos, pra tudo isso que nós crescemos acreditando que é o melhor pra nós.
Agora estou no shopping, depois de fazer muitas compras, comendo um lanche do Mc Donald’s e esnobando as crianças que não tem dinheiro pra comprar. Daqui a pouco vou pegar meu carro, enfrentar duas horas de trânsito, chegar na minha casa, murada, cercada, protegida, e assistir televisão. Amanhã vou acordar cedo com aquele barulho infernal do despertador, levantar de mal humor, ir para aquela porcaria de emprego, sair do emprego, pagar minhas contas, pagar meus impostos, pro governo cuidar de mim, e ser feliz! Pois eu só sei ser feliz assim. Feito um robô.

sábado, 18 de outubro de 2008

A que ponto chegááámos

Notícia que eu li há alguns dias:

Igreja de Ribeirão Preto vai aceitar dízimo pago em cartão de crédito

Do UOL Notícias
Em São Paulo


As filas cada vez maiores na secretaria de atendimento da Catedral Metropolitana de São Sebastião, no centro de Ribeirão Preto (SP), motivaram a reforma modernizatória: transferir a secretaria para uma sala maior, com ar condicionado, banco de espera (com direito a revistas), máquina de café, senha eletrônica e duas máquinas de cartão - Visa e Mastercard - para melhor atender à clientela exigente."As pessoas que vinham aqui agendar casamento ou batizado perguntavam cada vez mais se podiam pagar com o cartão. Hoje em dia é díficil as pessoas andarem com dinheiro no bolso", conta Francisco Jaber Zanardo Moussa, o Padre Chico, responsável pela paróquia. Outra vantagem do cartão, ele explica, é diminuir o dinheiro físico dentro dos cofres da igreja, onde furtos já foram registrados.
As máquinas também serão utilizadas para o pagamento do dízimo - prática já existente em algumas igrejas evangélicas, como a Universal e a Renascer em Cristo. Mas a modernização tem seus limites. Padre Chico frisa que o espaço de utilização será restrito à secretaria; por conseqüência, a máquina não vai substutuir a tradicional cestinha de contribuição passada durante as cerimônias: "A missa tem um sentido eucarístico, cerimonial, não posso colocar uma máquina lá no meio", diz. A nova sala de atendimento receberá a benção inaugural nesse domingo e começará a funcionar na segunda-feira. Na antiga secretaria, será instalada uma lojinha de artigos religiosos, conta o padre empreendedor. Na nova secretaria, haverá três guichês (a antiga tinha só dois): um para informações e atendimento de rotina, outro para sacramentos (batizado, primeira eucaristia, crisma, casamento) e um terceiro, onde ficará um padre, voltado para atividades exclusivas como bênção de imagens e terços, dúvidas específicas, entre outros assuntos.

Você já pensou? No meio da missa, vem aquelas pessoas, com duas máquinas de cartão dentro da cestinha, perguntando: É Visa ou Mastercard?
Se não fosse cômico, seria trágico, e vice-versa!